Landi em Minha Vida: André Arruda

Portinha do estabelecimento de Seu Osmar, em um domingo qualquer, por André Arruda.

Tenho pequenos hábitos que carrego como pequenas tralhas empoeiradas pela antiguidade do tempo que as sustento.

Uma manha de domingo me é quente pelas ruas vazias da cidade velha, esbarrando com passados remotos de suas esquinas, entrecruzadas com acontecimentos do meu próprio passado, nostalgia arrebatadora em múltiplas frequências. Domingo pra mim é dureza, sempre foi. Ansiedade de culpa, de problemas não resolvidos, meus fantasmas tiram férias durante a semana para solicitarem suas audiências no domingo, maldito sarcástico superego.

Como Chico Science dizia “amo o meu domingo” em sei lá que música, pô, sempre quis amar o meu também, sempre anseio pela anulação de tal estado. Percorro desesperadamente as ruelas onde nasci e me criei atrás de contrapontos…

(Será essas casas velhas, que sempre me espreitaram, ligadas a essa antiguidade em que me carrego? Ter olhado com curiosidade depravada das ruas onde sempre caminhei para dentro destes casas-caixões através de suas janelas desbotadas, justamente atrás da antiguidade que as denunciava, atrás de um história que ali estava escrita por seu próprio estado, me jogaram sempre no passado de mim mesmo e da qual não tenho como identificá-lo, tal como nunca consegui perceber os fatos concretos daquelas histórias ali só manifestamente denunciada mas nunca latentes? “Quando você olha demais dentro de um abismo, o abismo olha dentro de você”, agora eu entendo o que Niesztche quis dizer…)

…dos lugares que percorro sempre inicio no velho comércio do Osmar. Lá se reúnem a velha nata dos moradores da Rua Dr. Malcher, do perímetro que se estende da Cintra até a rua que passa por detrás da igreja da Sé. É o único lugar aberto no vazio dominical da impotência histórica de nosso bairro. A próxima ilha de vida só a quatro quarteirões, na Cametá, a “Dona Sara”, mas lá não há reuniões, apenas transeuntes comprando coca-cola ou óleo pra fazer o almoço.

No comércio do Osmar, portinha minúscula onde se entulham parceiros de copo e de “sacaneação”, uma geladeira de Skol e produtos variados que vão desde absorvente femininos à mortadela, velhas figuras dão o ar da sua graça lá pelas 11h até às duas, quando o Osmar finalmente fecha suas portas (uma única vez na semana; mas, porém, todavia, quando essa galera se empolga rola churrascada no meio da rua, e Osmar também enche a cara e a onda vai até umas 17H, ao som de Raul Seixas.

No meio da sacanagem, papos filosóficos canalhas, receitas de peixe, explicações técnicas sobre a produção de destilados, e os mais variados papos respeitosamente fúteis para a labuta da segunda-feira próxima, cada um começa a trazer exemplares da culinária dominical de suas respeitosas senhoras, e no meio do papo e da gelada, já sai é todo mundo almoçado, pra almoçar mais uma vez em casa, é claro, e com cerveja levada dentro de sacos da Yamada lá do Osmar.

Dentre as figuras do comércio do Osmar, tem uma que faz as honras para estar nestas inúteis linhas: é o Chico Kahwage. Lenda da CV, sushimam, cozinheiro profissa, x-tudo do conhecimento lido amiúde em assinaturas de revistas variadas, e o cara se empolga: Vai lá na casa dele pegar um revista que faz testes sobre todas as marcas de tudo o que existe pra mostrar o que presta e o que não presta para te convencer a não comer mais “miosho” porque a informação nutricional da embalagem está totalmente errada, de riso fácil, bom comerciante, pai, boêmio, um grande sacaneador da vida alheia, daquele que faz o caboco chorar, brother.

E assim são muitos outros que ali se reúnem. Não tem tristeza: tu podes chegar lá corno e mal-pago, eles vão sacanear com a tua cara, contar da cornice deles, sacanear as dos outros, contar histórias escatológicas do coleguinha ao lado e tu sais rindo da própria cara.

Passada obrigatória do meu domingo. Tristeza vai embora: vejo pulhas como eu rindo de si mesmo, celebrando e confirmando a vida. Fica tudo numa nice.

Com umas cinco geladas na cabeça já (ou mais, confesso) pego o beco, subo a Joaquim Távora, sol tinindo, vou parar na República, tomo mais uma, encontro outras figuras populares, sento na grama, escuto um tambor, como qualquer coisa, grama de novo, passou o dia, e o bom filho a sua casa torna cansado e com fantasmas amordaçados.

Pois, meus pares, deixo minha homenagem ao Comércio do Osmar, a minha nostalgia dominical que me lança nas ruas atrás de explosão de vidas e à Cidade Velha (suburbano convicto).

E querendo me ver, passem lá, Joaquim Távora entre Dr. Assis e Dr. Malcher, para tomarem uma comigo, lá pelas 11h!

(André Arruda)

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