Entrevista: Paula Rodrigues

Paula Rodrigues é Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade da Amazônia (1989), com Pós-Graduação em História e Memória da Arte também pela Universidade da Amazônia (2001). Paula é autora de O Tempo e a Pedra (2003), livro com análise documental e imagética do Cemitério Soledade, e pelo qual acabou recebendo a Medalha Dalcídio Jurandir pela APLI (Academia Paraense Literária Interiorana). Paula contribuiu ainda como pesquisadora do projeto “Enciclopédia Cultural da Amazônia”, onde escreveu sobre arte mortuária (2007).

Abaixo, a primeira parte da entrevista concedida à equipe do Fórum Landi:

O que falta para o restauro do Cemitério da Soledade?

Na verdade, o cemitério é tombado pelo patrimônio histórico. Então, qualquer operação ou modificação que se faça, depende do Iphan. Belém já esperava isso por muito tempo, principalmente quem trabalha nesse meio, as pessoas da área de patrimônio. O Cemitério da Soledade está bem no centro da cidade, é emblemático, num bairro nobre e muito acionado. Por enquanto, nunca teve nenhuma medida muito eficaz, eram só paliativas, pequenas coisas perto do Dia de Finados, mas um projeto completo de restauração e de uso ainda não foi implementado.

Foto de Janduari Simões

Enquanto isso, cemitérios em todo o mundo vêm sendo preservados…

Alguns cemitérios de outros países que surgiram na mesma época, como o Cemitério da Recoleta, na Argentina, ou o Stanglieno, em Gênova, são tidos como monumentais – verdadeiros museus a céu aberto – onde existe um sistema realmente profissional de manutenção. Aqui, no Brasil, já existem locais com visitas monitoradas, por exemplo… eu visitei recentemente o Cemitério do Campo Santo, em Salvador, onde há orientação com placas, visitas monitoradas, folder informativo… quer dizer, embasamento para o turista, que visita a construção por conta de seu valor artístico e histórico. Há cemitérios que apresentam grupos escultóricos muito grandes, com toda uma simbologia que também merece ser estudada. Essa é também uma parte muito importante, o enfoque de meu trabalho.

Como se deu o processo de pesquisa e levantamento de dados de teu trabalho?

Fiz o levantamento dos principais túmulos que existiam, com o intuito de imaginar o que o homem do século XIX tentava deixar para o futuro através das imagens: o que significava a ampulheta alada, o porquê da âncora nesse caso, a cobra mordendo o próprio rabo… Então, é claro que é um local permeado de simbologias muito fortes, nas colunas, nos anjos – cada anjo tem significado próprio: anjo criança, querubim, anjo da morte, que tem uma asa longa, praticamente encostando no chão. Você pode ver uma série de figuras zoomórfas, ricas em simbologia, um ponto muito interessante para quem vê, para quem pesquisa: é um registro de uma época, como o homem do Séc. XIX encarava a morte, bem diferente de hoje em dia, quando existem aqueles cemitérios parques com lápides impessoais, como se o homem não tivesse que se confrontar. Isso é muito comum hoje em dia: quando a pessoa morre, a família resolve essas questões de um dia para o outro, quando antigamente se planejava em vida todo seu funeral, seu túmulo… como se o homem fosse mais próximo, familiarizado, ciente de seu caráter passageiro no mundo.

Foto de Janduari Simões

O homem se confrontava mais naquela época consigo mesmo, sua existência?

Naquela época, o homem era mais propício a isso. Primeiro, é claro, as mortes eram muito mais comuns: as pessoas morriam de epidemias, existiam as pestes, que matavam um monte de gente ao mesmo tempo. Talvez, por isso, existia esse temor associado àquela sensação de querer se perpetuar na memória. Um esposo que perdeu a sua esposa muito amada e queria fazer um mausoléu, um monumento a esse amor. Os pais que perdiam a filha muito nova e queriam deixar para a posteridade o nome da criança…

Tem uma sepultura que é muito cândida, muito bonitinho, chama-se Lulu. Não é cheia de ornamentos, é discreta: um vaso, uma urna funerária e uma espécie de lençol… um “panejamento”, como a gente chama, cobrindo a urna, como se fosse para aquecer. Durante a pesquisa, notei que a Lulu era uma criança que morreu com três anos. E ali eu entendi o que significava a rosa em botão quebrada – uma flor que não chegou a desabrochar. Então, eu digo que o Soledade é um livro de histórias com texto e gravura. Os textos são os epitáfios, as lápides escritas, e as gravuras são os inúmeros símbolos que podemos encontrar no cemitério.

Qual seria a importância do restauro do Soledade, do ponto de vista da Educação Patrimonial?

Muito, muito importante, pois não adianta fazer apenas a modificação se não houver todo um processo de educação patrimonial que as acompanhe. O cemitério da Soledade, construído em 1850, tem uma particularidade: em 1880, fecharam-se os portões. A partir de então, não havia mais encerramento, o que contribuiu para manter toda a área do Soledade como um ótimo registro do Séc. XIX. Quando continuam abertos para encerramentos, vemos um processo comum, onde esculturas dos séculos XIX e XX habitam o mesmo cemitério. Assim, vemos a passagem do tempo através da mudança de estilo das construções; do romantismo ao realismo, modernismo, cubismo etc. Como o Soledade fechou suas portas, é como se aquele pedacinho de nossa cidade no Séc. XIX permanecesse guardado.

Foto de Janduari Simões

Como conciliar educação patrimonial às visitas dos devotos que ainda passam por lá, deixando para trás seus “objetos de fé”?

Com o passar do tempo, a população começou uma série de ações de devoção às almas. Isso é muito forte até hoje: toda segunda-feira, o cemitério é aberto o dia inteiro, e os mais variados devotos fazem culto às almas, acendem velas no cruzeiro – alguns túmulos são de devoção popular. Isso é muito interessante, quer dizer, são “santos”, entre aspas, pois não são canonizados pela Igreja Católica, mas a própria população cria aquela devoção.

A imagem do menino Zezinho, que também morreu precoce, é um exemplo: as pessoas colocam bombons, refrigerante, vestem nele camisetas do menino Jesus, não no intuito de destruir – não têm esta noção. Mas, caso houvesse uma ação de educação patrimonial, talvez estes devotos passassem a imaginar: “Poxa, se eu colocar uma camiseta neste mármore, molha, vai corroer todo o mármore, e danificar. O bombom que eu deixo lá vai dar formiga, e aquele melado também vai danificar a obra”. Não vamos coibir ou proibir as devoções, o que seria antropologicamente terrível, mas existe a necessidade de educação por trás dessas melhorias – são ações que sustentam qualquer projeto a ser implantado. E eu tenho certeza de que as pessoas, se conscientizadas, teriam maiores cuidados.

Anúncios
5 comentários
  1. jacob disse:

    Muito boa entrevista! Parabéns a dotoura Paula e ao Forum Landi pelo trabalho.

  2. Flora Nazareth de Lima Ribeiro disse:

    Parabéns, Paula! Adorei o livro e também a entrevista, Com carinho, Flora.

  3. Ana Elza disse:

    Maravilha prima. Você como sempre enxergando longe. Bastante esclarecedora sua entrevista.Parabéns, adorei.Bj

  4. ´Maria José Caluff disse:

    Tu és uma jóia rara, minha filha
    Felipe
    Fico maravilhada com a segurança que voce fala sobre o Soledade.Parabéns. Recordo as dificuldades de inicio:Pesquisas feitas ao meio dia, sob um sol e calor muito forte. Valeu!
    Beijos Maria José

  5. rafael disse:

    onde consigo comprar o livro O Tempo e a Pedra?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: