Entrevista: Domingos Oliveira

Domingos Oliveira é Arquiteto e Urbanista formado pela UFPA (1990), Engenheiro Civil (CESEP/1987) e Mestre em Artes, pelo Institudo de Ciências da Arte da UFPA (2011). Servidor do Ministério Público do Estado do Pará, Domingos é especialista em Interpretação, Conservação e Revitalização do Patrimônio Artístico de Antônio José Landi. Atualmente, dedica-se à pesquisa da arquitetura do século XVIII em Belém, com ênfase no repertório ornamental de nosso arquiteto italiano predileto, Landi.

O trabalho de Domingos em seu blog Ornamento Arquitetônico é destaque usual aqui no blog do Fórum – e não é por menos.

Abaixo, entrevista concedida pelo pesquisador à equipe do Fórum Landi.

Em tua dissertação, expões detalhadamente as contribuições ornamentais de Landi para a arquitetura de Belém. A preservação de um patrimônio deve se basear em pesquisas como a tua?

Muito já foi estudado da vida e obra de Antônio Landi, porém é visível a oscilação entre os autores no que diz respeito a seu estilo. Como o ornamento, sua presença ou ausência, define um estilo, lancei então um olhar ampliado e sistematizado sobre os ornatos que o arquiteto utilizou em sua produção, no sentido de enxergá-los com “lentes de aumento”, a fim de revelá-los, dessa forma, espero ter contribuído com os estudos landianos. Acredito que ao desvendar, através desse olhar microscópico, detalhes da obra do arquiteto, contribuí para reforçar, mais ainda, sua importância e seu valor no panorama da arte setecentista no Brasil e, quiçá, no mundo. Certamente, quanto mais detalhes de um bem são conhecidos, reforçando assim sua importância, mais se entende que o mesmo deva ser preservado e legado às gerações futuras, e aí reside um mérito dessa pesquisa.

Quais são as dificuldades de se pesquisar o patrimônio histórico de Belém? Existe uma relação entre essas dificuldades com a própria dificuldade de manutenção desse patrimônio?

Ao longo do tempo, muito foi perdido de nossa cultura, de nossas referências históricas. Há arquivos precisando de cuidados e muitos deles ainda necessitando ser revelados, ação essa que pode desvendar muito de nosso passado e que pode tecer o pano de fundo da cultura de um determinado período. Um exemplo disso ocorreu comigo durante a pesquisa sobre a Capela Pombo, quando encontrei informações da existência de outras capelas particulares na cidade, o que, aliás, já suspeitava, e tais referências estavam guardadas nos documentos da época e precisando de pesquisa. Além disso, há fontes documentais armazenadas em arquivos fora da cidade e mesmo fora do país. Com o acesso limitado, montar esse percurso se torna mais trabalhoso. Ao fazer um paralelo com a manutenção do patrimônio histórico de Belém, se há lacunas quanto à história desse patrimônio, suas origens, sua importância, o preenchimento dessas lacunas fortaleceria a necessidade de preservá-lo e de mantê-lo para as gerações futuras.

Rua Gaspar Viana, por Domingos Oliveira.

De modo geral, qual é a situação do patrimônio histórico em Belém? E com relação à Cidade Velha?

Falta cuidar. São anos de descaso. Muito foi perdido e não poderá, infelizmente, ser recuperado. Espera-se que o que ainda resta, possa ser salvo, pois o processo de degradação continua. Falta conscientizar de que o ato de preservar e manter edificações, por exemplo, pode trazer benefícios para a cidade; de que o novo e o antigo podem conviver harmoniosamente; de que as requalificações, quando bem articuladas, podem ser positivas e que medidas preservacionistas podem ser benéficas. Mas falta visão de conjunto. Não se pode continuar recuperando prédios isolados sem que se pense no entorno, nas edificações vizinhas, na paisagem, no trânsito, na população que nele mora ou que dele se utiliza, enfim no conjunto.

Por fim, é preciso tratar as ações restaurativas de edifícios de maneira séria e responsável. Não é possível continuar fazendo reformas e chamar de restauração como o que se viu recentemente no 2º Batalhão da Polícia Militar do Estado do Pará. E é importante que se pensem não apenas nos conjuntos remanescentes do período colonial, mas das épocas subsequentes, afinal tudo faz parte dos bens patrimoniais da cidade.

Especificamente as duas primeiras áreas de ocupação da cidade – bairros da Cidade Velha e do Comércio – mostram as situações mais graves. O primeiro, o mais antigo, predominantemente residencial, perdeu bastante de suas edificações civis e muitas das remanescentes estão degradadas. O segundo, dominado, em geral, por edificações inadequadamente adaptadas ao uso comercial, apresenta graves problemas de infra-estrutura urbana, dada a circulação intensa de veículos e pessoas no horário comercial o que contrasta com a subutilização nos demais períodos.

Tv. Rui Barbosa, por Domingos Oliveira.

O que falta para que essa situação seja mudada? Como avaliarias a relação entre o belenense e o patrimônio histórico da cidade?

Falta massificar o pensamento de que o patrimônio histórico pode e deve ser motivo de orgulho para a população. Mas essa transformação precisa de tempo, pois é necessário que seja feita de forma profunda. Os ensinos médio e fundamental deveriam ter entre suas metas a História desse Estado, dessa cidade e o estímulo à educação do olhar. O belenense, de uma maneira geral, desconhece seu passado e, por desconhecê-lo, não o valoriza. Utilizar o patrimônio arquitetônico, suas edificações, suas ruas e seus monumentos, por exemplo, para contextualizar a história da cidade poderia contribuir de forma significativa para essa mudança. Felizmente, movimentações, ainda que isoladas, começam a surgir no sentido de preservar o patrimônio histórico dessa cidade e devem ser estimuladas. Veja-se o recente e louvável movimento “Sempre Apinajés”, que tomou força através das redes sociais, e que movimentou a opinião pública no sentido de que se retorne o nome de Travessa Apinajés, a uma das ruas do Bairro de Batista Campos.

A educação patrimonial é certamente necessária no processo de conservação do patrimônio histórico. Como achas que melhor se encaminharia esse tipo de medida?

A partir do momento em que o indivíduo conhece a cidade em que vive, sua história, sua cultura, seus bens arquitetônicos, naturais e artísticos, pode adquirir a consciência de que os elementos do passado, quer recente, quer longínquo, precisam ser preservados pois constituem as marcas da passagem do tempo para a cidade e para seus habitantes e, portanto, responsáveis pelo que aquele indivíduo vivencia hoje, afinal o presente é o resultado dos passados. Dessa forma, a educação patrimonial é necessária ao processo de conservação do patrimônio histórico, pois reforça positivamente o valor dos bens patrimoniais.

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2 comentários
  1. João Bôsco da Silva Castro disse:

    Domingos,
    Finalmente consegui ler tua entrevista. È positiva em vários aspectos, em primeiro lugar pelo olhar clínico de alguém que realmente, além de identificar os tesouros que a cidade de Belém arquitetonicamente possui, ainda fornece pistas de como o mesmo pode ser descoberto pela população, especialmente a população jovem. Na realidade um bom impulso seria a possibilidade de inserir no Programa de Ensino, especialmente liderado pela Secretaria de Educação, uma disciplina voltada para o Patrimônio Histórico. Ampliaria essa visão, além de proporcionar um autêntico orgulho da cidade na qual vivemos.
    Parabéns pelo belo e grande trabalho em pról da cultura paraense.
    João Bôsco

    • Domingos Oliveira disse:

      Obrigado, tio, pelo incentivo!

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