A Lição das ruas quem dá é Paul Goldberger

O americano Paul Goldberger, professor e crítico de arquitetura, diz que, estudando construções de todos os tipos pelo mundo afora, descobriu algo essencial: numa cidade, a rua é mais importante que os prédios

Paul Goldberger respira arquitetura. Na sala de seu apartamento, uma parede é dominada por um pôster clássico com imagens de arranha-céus de Nova York. No escritório de casa, entre prateleiras de livros, ele tem uma vasta coleção de miniaturas de construções icônicas nos EUA e em outros países. Formado em história da arquitetura, Goldberger divide sua dedicação ao assunto em três atividades: é professor na New School, crítico da revista Neo Yorker e escritor e palestrante. Função que o levará a São Paulo nesta semana. No Arq.futuro, evento que discutirá arquitetura durante três dias, Goldberger fará palestra e lançará seu livro mais recente, A Relevância da Arquitetura, no qual discorre sobre o impacto social e cultural do desenho de prédios e casas.

Respirando arquitetura, Goldberger aprendeu que ela não é tudo, às vezes nem o principal. “Numa cidade, a rua é mais importante que os prédios”, diz. “A rua é uma idéia antiga que funciona perfeitamente. Não precisamos reinventá-la. Uma das razões pelas quais Nova York funciona tão bem é que a cidade se construiu voltada para a rua. E na rua que está a vida das cidades”. Por isso, ele torce o nariz para os shopping centers plantados no meio das cidades. “São como um aspirador, tirando as pessoas das ruas”. Adora Nova York, sobretudo a vizinhança oeste do Central Park, onde vive há décadas, de prédio em prédio. Morou no Dakota, símbolo da cidade pelo perfil acastelado e germânico e pelo assassinato de John Lennon, alvejado por quatro tiros quando entrava no edifício. Morou no San Remo e, agora, mora no Beresford, ambos debruçados sobre o Central Park e projetados pela mão serena do arquiteto Emery Roth (1871-1948).

A diferença de tantos profissionais e críticos, Goldberger tem a boa qualidade de não ser idiossincrático. E tão eclético que, entre seus favoritos, estão o arquiteto Andrea Palladio (1508- 1580), cuja maestria em unir os estilos grego e romano acabou por definir o que se entende por arquitetura ocidental, e Frank Gehry, o canadense que encanta o mundo com suas fabulosas esculturas de titânio. Nem as lanchonetes do McDonald’s ou os cassinos de Las Vegas são apontados como horror arquitetônico. “Eu não viveria em Las Vegas, mas acho-a uma cidade envolvente. E até o McDonald’s, nos últimos anos, tem melhorado suas instalações. Elas estão ficando mais sofisticadas, mais modernas e, em alguns casos, até tentam se encaixar com mais harmonia na cidade em que estão.”

Av.Visconde de Souza Franco, por Mara Hermes.

 

A seguir, um resumo de sua conversa com VEJA:

VEJA: A arquitetura verde será muito diferente da atual?VEJA: Com o espaço virtual tomando o lugar do espaço físico, pode-se morar num canto do planeta e trabalhar no outro. Nesse mundo cibernético, a arquitetura, que é física e presencial por natureza, perderá gradualmente a relevância?

 

PAUL GOLDBERGER: Acho que a virtualização tornará a arquitetura ainda mais relevante. Hoje fazemos muitas coisas on-line. Eu mesmo trabalho em casa. Tive uma reunião de manhã, mas ficarei o resto do dia trabalhando em casa. À medida que as pessoas saem menos, podem ficar mais interessadas na natureza do seu ambiente, mais envolvidas com uma peça especifica de arquitetura — a própria casa. E, porque ficamos cada vez mais em casa usando o espaço virtual, acho que os lugares reais ficarão mais especiais, mais preciosos até. Somos gregários, gostamos de espaços públicos. Quando a tecnologia permitiu a impressão de bons livros de arte, houve quem decretasse a morte dos museus. Pensavam que mais ninguém se interessaria em visitá-los para ver o que já fora visto num livro de alto padrão. Aconteceu o contrário. As pessoas se familiarizam com Monet ou Rembrandt nos livros e ficam mais interessadas em ver a obra real. Com a música, deu-se algo parecido. No século XIX, não havia meio de escutar música que não fosse saindo de casa, comprando um ingresso e indo a um concerto.
Hoje, a tecnologia nos permite ouvir música em qualquer lugar, a qualquer hora, mas as pessoas continuam indo aos shows ao vivo.

PAUL GOLDBERGER: Não acredito. Quando os arquitetos começaram a se preocupar com o consumo de energia, anos atrás. pensava-se que seria o fim dos prédios de vidro. Neles, com o sol entrando direto, o calor aumentava e o uso do ar-condicionado explodia. No inverno, como o vidro não retém calor, o sistema de calefação ficava sobrecarregado. Os arranha-céus voltariam ao tijolo e à pedra. No entanto, os fabricantes transformaram o vidro e hoje temos mais prédios de vidro do que antes. É um edifício de vidro pode ser tão ambientalmente correto quanto um edifício de pedra. O que realmente vai aumentar são os telhados verdes. Mas isso mudará a aparência dos prédios vistos de cima, não da rua. Chicago tem avançado bastante em relação à arquitetura ambientalmente correta. E um fato curioso. Chicago é uma cidade fria, com um longo inverno, não precisa se preocupar com o alto consumo de ar condicionado no verão. O prédio da prefeitura, que é antigo, passou por uma reforma sofisticada para poupar energia e tem um telhado verde. O caso mais importante que conheço de prédio antigo reformado para melhorar o consumo de energia é o Empire State, em Nova York. Ele é famoso por ser alto, mas merece ser famoso por ser verde. Hoje, é eficiente no consumo de energia e sua aparência é a mesma.

VEJA: Qual a cidade mais bonita do mundo?
PAUL GOLDBERGER: Considerando apenas a beleza arquitetônica, Paris. Talvez Roma. Mas, considerando cidades que reúnem uma vasta arquitetura atraente e assim criam bairros incríveis, eu acrescentaria Londres, Pequim, Xangai e Nova York. Também Chicago, Los Angeles e Buenos Aires. Talvez São Paulo. Sei que São Paulo não é bonita, mas dizem que é fascinante, eletrizante.

VEJA: Nas cidades brasileiras, é comum a arquitetura brigar feio com o urbanismo. Esse conflito é resultado de quê?
PAUL GOLDBERGER: Em lugares diferentes isso significa coisas diferentes. Quando se tem bom urbanismo mas uma arquitetura que lhe é indiferente, é arrogância. Nos subúrbios americanos, onde esse problema também existe, a razão é outra. Na segunda metade do século XX, abandonamos o urbanismo e começamos a construir em função do automóvel. Adoro carros, mas o carro é antiurbano por excelência. Cidades construídas nos últimos cinquenta ou setenta anos favoreceram o carro à custa do bom urbanismo. E um problema mais grave que ter um ou outro edifício horroroso plantado no meio da cidade.

VEJA: Brasília, cidade feita para o automóvel, já foi descrita como a glória e o túmulo do modernismo. Qual a sua opinião?
PAUL GOLDBERGER: Brasília tem boa arquitetura e terrível urbanismo. Oscar Niemeyer foi um discípulo de Le Corbusier, um dos maiores arquitetos de todos os tempos. Mas Le Corbusier era um urbanista horroroso. Ele percebeu o efeito profundo que o automóvel teria nas cidades, e entendeu que o melhor a fazer era destruir a cidade tradicional e construir uma cidade nova, inteiramente a serviço do automóvel. Isso não funciona. Qualquer lugar em que você precisa dirigir o tempo todo não é, a meu ver, uma cidade bem resolvida. Niemeyer é um dos mais importantes arquitetos do século XX. Fez prédios maravilhosos. Mas o plano urbano de Brasília não funcionou. Sei que o desenho urbano é de Ludo Costa, mas entendo que era muito consistente com aquilo que Niemeyer queria. Digamos que em Brasília o arquiteto se saiu bem, mas o urbanista não.

[Fonte: Revista Veja/André Petry]

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