Landi em minha vida: Breno Peck

Igreja do Carmo, por Breno Peck

Faz algumas – não muitas – chuvas, montei meu escritório aqui na Cidade Velha, e a primeira coisa que me vem à cabeça quando penso nesta cidade dentro da nossa cidade é frustração, chateação, decepção. Frustração com a história que é esquecida em nome do lucro fácil e fugaz; chateação com os péssimos hábitos de moradores e visitantes, que tratam o bairro com um desleixo do qual não ousariam dedicar nem uma fração aos insossos shopping centers; frustração, com aquilo que não é mais e parece que nunca voltará a ser. A Cidade Velha é feia, suja, pobre e esquecida. Só que basta eu passar mais uns minutos pensando que me pego me afeiçoando à Cidade Velha.

Órgão da Sé, por Breno Peck

Lembrando dela como uma madrinha que eu há muito não via; lembrando dos bem-te-vis e sabiás e periquitos do fim da tarde; lembrando da chuva, que lá cai mais preguiçosa que no resto da cidade; lembrando do sol se esgueirando por entre as nuvens e as ruazinhas depois do toró – tenho certeza que ele faz isso na Cidade Velha antes que em todos os outros lugares da cidade.

E em ambas as lembranças – a doce e a azeda – sempre está o tal do Landi. Este cara, que eu nunca vi e nem sei quem é, deu a nossa velha cidade o rosto daquela madrinha esquecida, seja ela uma senhora exibida e elegante como a Catedral da Sé, seja ela doente e ignorada como a Capela Pombo, seja ela humilde, bela e única como a Igreja de São João Batista; foi este caboco lá das bandas da grande bota que, sem sabermos, definiu para nós o que é a dona Cidade Velha.

E é aí que eu finalmente entendo o motivo que me permite acomodar duas ideias, duas noções, duas imagens tão diferentes sobre esta mesma senhora, como quer que ela se apresente: é porque eu gostaria que todos a enxergassem como enxergou Landi, o italiano que a conheceu, a entendeu e a cortejou, mas que a deixou cedo demais nas mãos de filhos, netos e afilhados ingratos e desleixados, que lhe deram rugas e cabelos brancos. Então que tal recuperar o tempo perdido e qualquer dia desses visitarmos a madrinha?

[Breno Peckvisite o Flickr deste advogado e fotógrafo de mão cheia, que muito nos honrou com seu depoimento]

Fotos: Breno Peck

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2 comentários
  1. JORGE EIRÓ disse:

    Belo texto, Breno!

  2. Domingos Oliveira disse:

    Parabéns!!!

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