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Entrevistas

Wesley Kettle é Doutorando em História Social pela UFRJ. Possui graduação em história pela Universidade Federal do Pará e especialização pelo departamento de Arquitetura da mesma instituição. Mestre em História Social da Amazônia pela UFPA, já havíamos publicado aqui no blog sua dissertação “Um súdito capaz no Vale Amazônico (ou Landi, esse conhecido)“. Com a atual situação da Capela Pombo à venda, Kettle volta a nosso blog pra falar um pouco sobre sua monografia “Capela Viva do Senhor Morto: usos do oratório público no Grão-Pará do século XVIII“, disponibilizada pra download pelo próprio autor. Confira abaixo, portanto, a entrevista com Kettle.

Você defende em sua monografia que o uso mais adequado da Capela Pombo é aquela definida pelos fiéis que a frequentam. Por quê? Você poderia esclarecer como seria essa definição?

Defendo isso porque creio que a Capela Pombo é hoje, em Belém, a construção do século XVIII mais visitada não por ter um valor histórico e artístico, ou por ter um sentido religioso pregado pela Igreja, mas pelos diversos interesses particulares dos fiéis que frequentam o espaço, tornando um lugar importante pra vida de cada um deles. A dinâmica e a vida da Capela devem ser entendidas partindo dessa perspectiva. É a visita diária, o segurar na mão do Cristo, uma gotinha de água benta nas mãos e o simples sinal da cruz apressado que dá vida à Capela. Por isso considero o uso da Capela de autoria dos seus visitantes. A Capela é hoje uma porta de acesso ao mundo espiritual, é onde o sapateiro e o juiz de direito clamam, lado a lado, pela cura da filha caçula que está no hospital – o uso dela é definido a partir dos desejos dos seres humanos, passar no vestibular, arrumar um marido, chegar em casa vivo… e tem os visitantes esporádicos: que entram pra fugir da chuva, pra se esconder do cobrador e até turistas.

A monografia também analisou e criticou o discurso de alguns intelectuais acerca da capela. Você concorda que esse discurso prejudica a forma como lidamos com patrimônios religiosos? Em que medida?

Prejudica na medida em que as instituições que trabalham hoje com esse tipo de patrimônio procuram valoriza-los repetindo argumentos desses intelectuais de meados do século passado (que, na minha opinião, não obtiveram sucesso), isto é, buscam apenas na originalidade artística e arquitetônica, no significado histórico, ou até em um autoria não comprovada, o valor do patrimônio, e esquecem de prestar atenção na opinião da população que visita ou que tem vontade de visitar aquele espaço.

Quero destacar que é preciso entender a função desse tipo de discurso pregado pelos intelectuais da década de 1960 até 1980, que discuto em meu trabalho, em seu contexto histórico. Foram os motivos políticos de um dado momento histórico que levaram intelectuais como Donato Mello Junior, Leandro Tocantins e Augusto Meira Filho lançarem mão desse tipo de argumento que dá importância à capela pelos seus ornamentos artísticos e pela assinatura do autor da obra.

Em minha opinião, o que prejudica a forma como lidamos com os patrimônios históricos em geral é não irmos além disso. Logo, penso que devemos estar atentos pra perceber como a comunidade vê aquele espaço.

No inicio da monografia, é feita uma apresentação do modo como as capelas eram construções anexadas à casa nobre, ou seja, de uso privado. Passa-se o tempo e muitos intelectuais defendem que aquela construção se tornou de domínio público. Qual seu posicionamento quanto a isso? Sendo autoria de Landi ou não, como você acha que deve ser encarada a preservação da Capela do Pombo?

Realmente, ao longo do tempo, ela assume uma função pública, ou como D. Alberto Ramos se referiu: “um oratório semi-público”, já que a capela iria atender não apenas à família do Governador, mas outros membros da administração pública. Percebo com tranquilidade as mudanças nos usos de um espaço como a Capela Pombo, e não vejo nenhum problema nisso. Deixo claro, ao final do primeiro capítulo, que podemos reconhecer a capela como um “palíndromo histórico”, isto é, particular e público – público e particular. Porém, no caso da capela, o mais importante é perceber o que seus inúmeros fiéis tem a ensinar àqueles que trabalham com preservação de monumentos históricos – é isso que busquei na minha monografia.

Sobre minha opinião a respeito da preservação, penso que a opinião dos fiéis sobre o estado deteriorado da capela deveria ser reverberado de alguma maneira, também acho que não só o poder público, como a Igreja deveria se envolver nesse processo.

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Flávio Nassar por Octávio Cardoso

Já houve outras tentativas de categorizar o patrimônio de Belém. A primeira, seria transformar o centro histórico em patrimônio cultural da humanidade, a segunda, aproveitar a diversidade e transforma-la em paisagem histórica. Nenhuma apresentou sucesso. A razão principal do fracasso diz respeito ao fato de o centro histórico encontrar-se bastante modificado. A arquitetura histórica está descaracterizada. A unidade é um dos elementos fundamentais cobrados pela Unesco para conceder à cidade o título. Mesmo se houvesse um projeto de restauração e revitalização do centro histórico, não seria um processo fácil. Daí a nossa alternativa. Uma estratégia que permite um recorte dentro da cidade e só é possível porque houve uma reformulação recente na legislação, permitindo que pontos isolados possam ser transformados em patrimônio. Vimos nessa alteração a possibilidade de alavancar Belém nesse processo de patrimônios da humanidade.

Aos que ainda não leram a entrevista com o Prof. Flávio Nassar no Diário do Pará, por favor, não deixem ler aqui. Vale muito a pena, cada palavra.

 

 

Entrevista com o poeta, musicólogo, folclorista, Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Pará, doutor das coisas do mundo, o paraense Vicente Salles, concedida à equipe de comunicação do Fórum Landi. Belém, Pará: Dezembro/2011.

Enfim, chegou o dia esperado por todos os amantes das belas artes de Belém e, por que não, do mundo: restaurada com a cooperação técnica do Fórum Landi, desde 2007, a Casa Rosada enfim abriu suas portas ao grande público, na manhã da última quinta.

A celebração fechou as atividades do Momento Itália-Brasil e contou com a ilustre presença do Embaixador italiano no Brasil, Gherardo La Francesca, pra quem é fundamental a valorização do patrimônio histórico e cultural: “A gente precisa valorizar o que foi criado nos séculos passados. Isso é importantíssimo, por isso eu estou muito contente de estar aqui nessa inauguração, parte do Momento Itália-Brasil e, com certeza, um dos mais importantes, porque os eventos podem ser maravilhosos, mas um concerto dura um dia, uma exposição dura semanas, mas o que estamos inaugurando hoje é uma realização permanente, que vai produzir, que vai estimular atividades importantes pra cultura do Brasil e da Itália”.

O Coordenador do Fórum Landi e Pró-Reitor de Relações Internacionais da UFPA, Prof. Flávio Nassar, transbordava orgulho ao apresentar a novíssima Sala Bolonha: “A idéia era juntar elementos clássicos da quadratura, mas, depois, começar a fazer algumas citações da obra de Landi. A cortina, por exemplo, é um elemento que está presente na quadratura que ele havia feito na Igreja de Santana de Mariuá, que ficava no alto Rio Negro, mas não existe mais. As colunas torcidas são também uma citação à antiga catedral de Belém, que o Landi construiu e que foi, depois, mudada com a reforma da catedral”.

Nassar destacou a pesquisa feita junto aos pintores italianos Pietro Lenzini e Giorgio Drioli na produção das quadraturas ilusionistas, depois adornadas com fauna e flora locais: “As plantas todas foram feitas baseadas em pesquisas e com elementos da nossa cultura. Temos aqui a Espada de São Jorge e o Comigo-ninguém-pode, plantas que na cultura popular protegem os ambientes, a revoada de urubus que acontece no Ver-o-Peso. Houve um concurso pra escolher, na internet, os periquitos que deveriam estar aqui, é todo um modelo de participação. Foi um grande presente que Belém ganhou, acho que foi um marco”.

ENTREVISTA: PIETRO LENZINI & GIORGIO DRIOLI

Pietro Lenzini nasceu em Bondeno, no ano de 1947. Depois dos estudos na Academia de Belas Artes, trabalhou na decoração do Teatro Municipal de Bolonha. Dedicou-se à prática da incisão desde o fim dos anos 70 e, contemporaneamente, à atividade pictórica. Fez diversas exposições na Itália e exterior: Roma, Firenze, Bilbao, Salamanca etc. Desde 1979, é docente de Cenotécnica na Academia de Belle Arti di Bologna, onde também leciona Teoria e Prática do Desenho Prospectivo. Além da produção pictórica e cenográfica, desenvolve uma constante pesquisa teórica sobre temática teatral, publicada em revistas especializadas e conferências.

Giorgio Drioli, por sua vez, nasceu em Roma, no ano de 1969. Pintor e cenógrafo, é formado na Academia de Belas Artes de Bolonha. Freqüentou cursos de Cenografia Cinematográfica e Televisiva em Skelleftea, na Suécia, e na Escola de Arte de Utrecht, na Holanda. Tem experiência em atividade teatral no âmbito da lírica e da prosa. Trabalhou no Teatro Municipal de Bolonha e, entre as várias atividades, destaca sua participação no Festival de Música de Londrina, no Paraná, com o Teatro Potlach, em 2000. Colaborou com Pietro Lenzini em diversas intervenções decorativas em empreendimentos públicos e privados. Acompanha com interesse a atividade experimental “teatro dos lugares”.

Abaixo, entrevista exclusiva com Lenzini e Drioli, responsáveis pela nova Sala Bolonha, concedida especialmente à equipe do Fórum Landi:

Vocês estudaram na Academia de Belas Artes de Bolonha, onde Landi foi aluno e professor. Qual foi a influência do arquiteto no trabalho de vocês?

Drioli: O que me inspira, em Landi, além de seu estilo pessoal, são o ritmo e peso visual de cada elemento decorativo e arquitetônico em seus projetos. Uma harmonia é vista nesses elementos e sua relação espacial, aonde a força expressiva do conjunto prevalece sobre partes individuais.

Lenzini: Landi é formado pela escola de Ferdinando Galli Bibiena, arquiteto e famoso prospectivo, professor da Accademia Clementina di Bologna; portanto, aprendeu a grande lição de perspectiva como forma de ilusão, aplicada à cenografia e à decoração quadraturistica . No projeto pra Casa Rosada, por conta disto, procuramos ter em mente o conceito de ilusionismo através das imagens arquitetônicas pintadas nas paredes, mudando a percepção do espaço real, traduzido em uma cena total.

Drioli: No projeto do Lenzini, o marmoreio falso por detrás da pintura é repetido acima do quadro, como uma conexão real entre a parede e o teto, aonde a intenção é justamente criar um link, uma ponte que dá continuidade às paredes, mas que também pode ser pensado como um elemento distinto entre os demais. Também a vegetação parte do fundo e vai além do marmoreio superior. Nesta busca por harmonia e poder de envolver o espectador, penso, pode-se identificar a influência de Landi. É bom notar também a composição em espiral do vôo do urubu. Além disso, ele havia pensado com a família Barale em criar um acompanhamento musical pra envolver ainda mais o espectador adentro dos corredores pintados da Casa Rosada.

E com relação à Amazônia? A proposta elaborada pelo Prof. Flávio Nassar pro projeto das quadraturas na Casa Rosada é uma mistura das tradições européias com aspectos da cultura amazônica. Como foi feita a pesquisa pra realização do projeto?

Lenzini: Queríamos projetar um tipo de reunião entre a fixação quadraturistica e a recuperação ambiente da flora amazônica, onde a vegetação rica, projetada em determinado lugar, permitisse que fosse criada uma ilusão da natureza anulando a ortogonalidade das paredes atrás de uma falsa balaustrada de mármore, que se repete também em sua volta a céu aberto.

Drioli: A pesquisa vem de um estudo cuidadoso das obras de Landi em Belém e, sobretudo, da flora local, que conhecemos graças aos passeios na companhia de Flavio Nassar. Também viajamos pelo interior da floresta amazônica, o que contribuiu significativamente pro projeto. Na verdade, o projeto do Lenzini – pintura total das paredes e tetos – passou por muitas mudanças e ajustes relativos ao projeto inicial, ainda em andamento.

Vocês também usaram pigmentos da região, como o urucum. Como surgiu a idéia de utilizar recursos locais e quais foram suas vantagens?

Drioli: Sim, há uma borboleta pintada com urucum. É como uma “face” que se formou por acaso; são elementos que passaram a fazer parte do trabalho, eu diria que inesperadamente. Também houve a escolha de alguns pássaros nativos, devido ao concurso iniciado no blog do Fórum Landi. Estas peculiaridades criam um certo mistério e cumplicidade, são coisas que só quem participou tem conhecimento.

Lenzini: Como que pra cimentar a relação entre o artificial e a natureza.

O americano Paul Goldberger, professor e crítico de arquitetura, diz que, estudando construções de todos os tipos pelo mundo afora, descobriu algo essencial: numa cidade, a rua é mais importante que os prédios

Paul Goldberger respira arquitetura. Na sala de seu apartamento, uma parede é dominada por um pôster clássico com imagens de arranha-céus de Nova York. No escritório de casa, entre prateleiras de livros, ele tem uma vasta coleção de miniaturas de construções icônicas nos EUA e em outros países. Formado em história da arquitetura, Goldberger divide sua dedicação ao assunto em três atividades: é professor na New School, crítico da revista Neo Yorker e escritor e palestrante. Função que o levará a São Paulo nesta semana. No Arq.futuro, evento que discutirá arquitetura durante três dias, Goldberger fará palestra e lançará seu livro mais recente, A Relevância da Arquitetura, no qual discorre sobre o impacto social e cultural do desenho de prédios e casas.

Respirando arquitetura, Goldberger aprendeu que ela não é tudo, às vezes nem o principal. “Numa cidade, a rua é mais importante que os prédios”, diz. “A rua é uma idéia antiga que funciona perfeitamente. Não precisamos reinventá-la. Uma das razões pelas quais Nova York funciona tão bem é que a cidade se construiu voltada para a rua. E na rua que está a vida das cidades”. Por isso, ele torce o nariz para os shopping centers plantados no meio das cidades. “São como um aspirador, tirando as pessoas das ruas”. Adora Nova York, sobretudo a vizinhança oeste do Central Park, onde vive há décadas, de prédio em prédio. Morou no Dakota, símbolo da cidade pelo perfil acastelado e germânico e pelo assassinato de John Lennon, alvejado por quatro tiros quando entrava no edifício. Morou no San Remo e, agora, mora no Beresford, ambos debruçados sobre o Central Park e projetados pela mão serena do arquiteto Emery Roth (1871-1948).

A diferença de tantos profissionais e críticos, Goldberger tem a boa qualidade de não ser idiossincrático. E tão eclético que, entre seus favoritos, estão o arquiteto Andrea Palladio (1508- 1580), cuja maestria em unir os estilos grego e romano acabou por definir o que se entende por arquitetura ocidental, e Frank Gehry, o canadense que encanta o mundo com suas fabulosas esculturas de titânio. Nem as lanchonetes do McDonald’s ou os cassinos de Las Vegas são apontados como horror arquitetônico. “Eu não viveria em Las Vegas, mas acho-a uma cidade envolvente. E até o McDonald’s, nos últimos anos, tem melhorado suas instalações. Elas estão ficando mais sofisticadas, mais modernas e, em alguns casos, até tentam se encaixar com mais harmonia na cidade em que estão.”

Av.Visconde de Souza Franco, por Mara Hermes.

 

A seguir, um resumo de sua conversa com VEJA:

VEJA: A arquitetura verde será muito diferente da atual?VEJA: Com o espaço virtual tomando o lugar do espaço físico, pode-se morar num canto do planeta e trabalhar no outro. Nesse mundo cibernético, a arquitetura, que é física e presencial por natureza, perderá gradualmente a relevância?

 

PAUL GOLDBERGER: Acho que a virtualização tornará a arquitetura ainda mais relevante. Hoje fazemos muitas coisas on-line. Eu mesmo trabalho em casa. Tive uma reunião de manhã, mas ficarei o resto do dia trabalhando em casa. À medida que as pessoas saem menos, podem ficar mais interessadas na natureza do seu ambiente, mais envolvidas com uma peça especifica de arquitetura — a própria casa. E, porque ficamos cada vez mais em casa usando o espaço virtual, acho que os lugares reais ficarão mais especiais, mais preciosos até. Somos gregários, gostamos de espaços públicos. Quando a tecnologia permitiu a impressão de bons livros de arte, houve quem decretasse a morte dos museus. Pensavam que mais ninguém se interessaria em visitá-los para ver o que já fora visto num livro de alto padrão. Aconteceu o contrário. As pessoas se familiarizam com Monet ou Rembrandt nos livros e ficam mais interessadas em ver a obra real. Com a música, deu-se algo parecido. No século XIX, não havia meio de escutar música que não fosse saindo de casa, comprando um ingresso e indo a um concerto.
Hoje, a tecnologia nos permite ouvir música em qualquer lugar, a qualquer hora, mas as pessoas continuam indo aos shows ao vivo.

PAUL GOLDBERGER: Não acredito. Quando os arquitetos começaram a se preocupar com o consumo de energia, anos atrás. pensava-se que seria o fim dos prédios de vidro. Neles, com o sol entrando direto, o calor aumentava e o uso do ar-condicionado explodia. No inverno, como o vidro não retém calor, o sistema de calefação ficava sobrecarregado. Os arranha-céus voltariam ao tijolo e à pedra. No entanto, os fabricantes transformaram o vidro e hoje temos mais prédios de vidro do que antes. É um edifício de vidro pode ser tão ambientalmente correto quanto um edifício de pedra. O que realmente vai aumentar são os telhados verdes. Mas isso mudará a aparência dos prédios vistos de cima, não da rua. Chicago tem avançado bastante em relação à arquitetura ambientalmente correta. E um fato curioso. Chicago é uma cidade fria, com um longo inverno, não precisa se preocupar com o alto consumo de ar condicionado no verão. O prédio da prefeitura, que é antigo, passou por uma reforma sofisticada para poupar energia e tem um telhado verde. O caso mais importante que conheço de prédio antigo reformado para melhorar o consumo de energia é o Empire State, em Nova York. Ele é famoso por ser alto, mas merece ser famoso por ser verde. Hoje, é eficiente no consumo de energia e sua aparência é a mesma.

VEJA: Qual a cidade mais bonita do mundo?
PAUL GOLDBERGER: Considerando apenas a beleza arquitetônica, Paris. Talvez Roma. Mas, considerando cidades que reúnem uma vasta arquitetura atraente e assim criam bairros incríveis, eu acrescentaria Londres, Pequim, Xangai e Nova York. Também Chicago, Los Angeles e Buenos Aires. Talvez São Paulo. Sei que São Paulo não é bonita, mas dizem que é fascinante, eletrizante.

VEJA: Nas cidades brasileiras, é comum a arquitetura brigar feio com o urbanismo. Esse conflito é resultado de quê?
PAUL GOLDBERGER: Em lugares diferentes isso significa coisas diferentes. Quando se tem bom urbanismo mas uma arquitetura que lhe é indiferente, é arrogância. Nos subúrbios americanos, onde esse problema também existe, a razão é outra. Na segunda metade do século XX, abandonamos o urbanismo e começamos a construir em função do automóvel. Adoro carros, mas o carro é antiurbano por excelência. Cidades construídas nos últimos cinquenta ou setenta anos favoreceram o carro à custa do bom urbanismo. E um problema mais grave que ter um ou outro edifício horroroso plantado no meio da cidade.

VEJA: Brasília, cidade feita para o automóvel, já foi descrita como a glória e o túmulo do modernismo. Qual a sua opinião?
PAUL GOLDBERGER: Brasília tem boa arquitetura e terrível urbanismo. Oscar Niemeyer foi um discípulo de Le Corbusier, um dos maiores arquitetos de todos os tempos. Mas Le Corbusier era um urbanista horroroso. Ele percebeu o efeito profundo que o automóvel teria nas cidades, e entendeu que o melhor a fazer era destruir a cidade tradicional e construir uma cidade nova, inteiramente a serviço do automóvel. Isso não funciona. Qualquer lugar em que você precisa dirigir o tempo todo não é, a meu ver, uma cidade bem resolvida. Niemeyer é um dos mais importantes arquitetos do século XX. Fez prédios maravilhosos. Mas o plano urbano de Brasília não funcionou. Sei que o desenho urbano é de Ludo Costa, mas entendo que era muito consistente com aquilo que Niemeyer queria. Digamos que em Brasília o arquiteto se saiu bem, mas o urbanista não.

[Fonte: Revista Veja/André Petry]

Domingos Oliveira é Arquiteto e Urbanista formado pela UFPA (1990), Engenheiro Civil (CESEP/1987) e Mestre em Artes, pelo Institudo de Ciências da Arte da UFPA (2011). Servidor do Ministério Público do Estado do Pará, Domingos é especialista em Interpretação, Conservação e Revitalização do Patrimônio Artístico de Antônio José Landi. Atualmente, dedica-se à pesquisa da arquitetura do século XVIII em Belém, com ênfase no repertório ornamental de nosso arquiteto italiano predileto, Landi.

O trabalho de Domingos em seu blog Ornamento Arquitetônico é destaque usual aqui no blog do Fórum – e não é por menos.

Abaixo, entrevista concedida pelo pesquisador à equipe do Fórum Landi.

Em tua dissertação, expões detalhadamente as contribuições ornamentais de Landi para a arquitetura de Belém. A preservação de um patrimônio deve se basear em pesquisas como a tua?

Muito já foi estudado da vida e obra de Antônio Landi, porém é visível a oscilação entre os autores no que diz respeito a seu estilo. Como o ornamento, sua presença ou ausência, define um estilo, lancei então um olhar ampliado e sistematizado sobre os ornatos que o arquiteto utilizou em sua produção, no sentido de enxergá-los com “lentes de aumento”, a fim de revelá-los, dessa forma, espero ter contribuído com os estudos landianos. Acredito que ao desvendar, através desse olhar microscópico, detalhes da obra do arquiteto, contribuí para reforçar, mais ainda, sua importância e seu valor no panorama da arte setecentista no Brasil e, quiçá, no mundo. Certamente, quanto mais detalhes de um bem são conhecidos, reforçando assim sua importância, mais se entende que o mesmo deva ser preservado e legado às gerações futuras, e aí reside um mérito dessa pesquisa.

Quais são as dificuldades de se pesquisar o patrimônio histórico de Belém? Existe uma relação entre essas dificuldades com a própria dificuldade de manutenção desse patrimônio?

Ao longo do tempo, muito foi perdido de nossa cultura, de nossas referências históricas. Há arquivos precisando de cuidados e muitos deles ainda necessitando ser revelados, ação essa que pode desvendar muito de nosso passado e que pode tecer o pano de fundo da cultura de um determinado período. Um exemplo disso ocorreu comigo durante a pesquisa sobre a Capela Pombo, quando encontrei informações da existência de outras capelas particulares na cidade, o que, aliás, já suspeitava, e tais referências estavam guardadas nos documentos da época e precisando de pesquisa. Além disso, há fontes documentais armazenadas em arquivos fora da cidade e mesmo fora do país. Com o acesso limitado, montar esse percurso se torna mais trabalhoso. Ao fazer um paralelo com a manutenção do patrimônio histórico de Belém, se há lacunas quanto à história desse patrimônio, suas origens, sua importância, o preenchimento dessas lacunas fortaleceria a necessidade de preservá-lo e de mantê-lo para as gerações futuras.

Rua Gaspar Viana, por Domingos Oliveira.

De modo geral, qual é a situação do patrimônio histórico em Belém? E com relação à Cidade Velha?

Falta cuidar. São anos de descaso. Muito foi perdido e não poderá, infelizmente, ser recuperado. Espera-se que o que ainda resta, possa ser salvo, pois o processo de degradação continua. Falta conscientizar de que o ato de preservar e manter edificações, por exemplo, pode trazer benefícios para a cidade; de que o novo e o antigo podem conviver harmoniosamente; de que as requalificações, quando bem articuladas, podem ser positivas e que medidas preservacionistas podem ser benéficas. Mas falta visão de conjunto. Não se pode continuar recuperando prédios isolados sem que se pense no entorno, nas edificações vizinhas, na paisagem, no trânsito, na população que nele mora ou que dele se utiliza, enfim no conjunto.

Por fim, é preciso tratar as ações restaurativas de edifícios de maneira séria e responsável. Não é possível continuar fazendo reformas e chamar de restauração como o que se viu recentemente no 2º Batalhão da Polícia Militar do Estado do Pará. E é importante que se pensem não apenas nos conjuntos remanescentes do período colonial, mas das épocas subsequentes, afinal tudo faz parte dos bens patrimoniais da cidade.

Especificamente as duas primeiras áreas de ocupação da cidade – bairros da Cidade Velha e do Comércio – mostram as situações mais graves. O primeiro, o mais antigo, predominantemente residencial, perdeu bastante de suas edificações civis e muitas das remanescentes estão degradadas. O segundo, dominado, em geral, por edificações inadequadamente adaptadas ao uso comercial, apresenta graves problemas de infra-estrutura urbana, dada a circulação intensa de veículos e pessoas no horário comercial o que contrasta com a subutilização nos demais períodos.

Tv. Rui Barbosa, por Domingos Oliveira.

O que falta para que essa situação seja mudada? Como avaliarias a relação entre o belenense e o patrimônio histórico da cidade?

Falta massificar o pensamento de que o patrimônio histórico pode e deve ser motivo de orgulho para a população. Mas essa transformação precisa de tempo, pois é necessário que seja feita de forma profunda. Os ensinos médio e fundamental deveriam ter entre suas metas a História desse Estado, dessa cidade e o estímulo à educação do olhar. O belenense, de uma maneira geral, desconhece seu passado e, por desconhecê-lo, não o valoriza. Utilizar o patrimônio arquitetônico, suas edificações, suas ruas e seus monumentos, por exemplo, para contextualizar a história da cidade poderia contribuir de forma significativa para essa mudança. Felizmente, movimentações, ainda que isoladas, começam a surgir no sentido de preservar o patrimônio histórico dessa cidade e devem ser estimuladas. Veja-se o recente e louvável movimento “Sempre Apinajés”, que tomou força através das redes sociais, e que movimentou a opinião pública no sentido de que se retorne o nome de Travessa Apinajés, a uma das ruas do Bairro de Batista Campos.

A educação patrimonial é certamente necessária no processo de conservação do patrimônio histórico. Como achas que melhor se encaminharia esse tipo de medida?

A partir do momento em que o indivíduo conhece a cidade em que vive, sua história, sua cultura, seus bens arquitetônicos, naturais e artísticos, pode adquirir a consciência de que os elementos do passado, quer recente, quer longínquo, precisam ser preservados pois constituem as marcas da passagem do tempo para a cidade e para seus habitantes e, portanto, responsáveis pelo que aquele indivíduo vivencia hoje, afinal o presente é o resultado dos passados. Dessa forma, a educação patrimonial é necessária ao processo de conservação do patrimônio histórico, pois reforça positivamente o valor dos bens patrimoniais.

Paula Rodrigues é Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade da Amazônia (1989), com Pós-Graduação em História e Memória da Arte também pela Universidade da Amazônia (2001). Paula é autora de O Tempo e a Pedra (2003), livro com análise documental e imagética do Cemitério Soledade, e pelo qual acabou recebendo a Medalha Dalcídio Jurandir pela APLI (Academia Paraense Literária Interiorana). Paula contribuiu ainda como pesquisadora do projeto “Enciclopédia Cultural da Amazônia”, onde escreveu sobre arte mortuária (2007).

Abaixo, a primeira parte da entrevista concedida à equipe do Fórum Landi:

O que falta para o restauro do Cemitério da Soledade?

Na verdade, o cemitério é tombado pelo patrimônio histórico. Então, qualquer operação ou modificação que se faça, depende do Iphan. Belém já esperava isso por muito tempo, principalmente quem trabalha nesse meio, as pessoas da área de patrimônio. O Cemitério da Soledade está bem no centro da cidade, é emblemático, num bairro nobre e muito acionado. Por enquanto, nunca teve nenhuma medida muito eficaz, eram só paliativas, pequenas coisas perto do Dia de Finados, mas um projeto completo de restauração e de uso ainda não foi implementado.

Foto de Janduari Simões

Enquanto isso, cemitérios em todo o mundo vêm sendo preservados…

Alguns cemitérios de outros países que surgiram na mesma época, como o Cemitério da Recoleta, na Argentina, ou o Stanglieno, em Gênova, são tidos como monumentais – verdadeiros museus a céu aberto – onde existe um sistema realmente profissional de manutenção. Aqui, no Brasil, já existem locais com visitas monitoradas, por exemplo… eu visitei recentemente o Cemitério do Campo Santo, em Salvador, onde há orientação com placas, visitas monitoradas, folder informativo… quer dizer, embasamento para o turista, que visita a construção por conta de seu valor artístico e histórico. Há cemitérios que apresentam grupos escultóricos muito grandes, com toda uma simbologia que também merece ser estudada. Essa é também uma parte muito importante, o enfoque de meu trabalho.

Como se deu o processo de pesquisa e levantamento de dados de teu trabalho?

Fiz o levantamento dos principais túmulos que existiam, com o intuito de imaginar o que o homem do século XIX tentava deixar para o futuro através das imagens: o que significava a ampulheta alada, o porquê da âncora nesse caso, a cobra mordendo o próprio rabo… Então, é claro que é um local permeado de simbologias muito fortes, nas colunas, nos anjos – cada anjo tem significado próprio: anjo criança, querubim, anjo da morte, que tem uma asa longa, praticamente encostando no chão. Você pode ver uma série de figuras zoomórfas, ricas em simbologia, um ponto muito interessante para quem vê, para quem pesquisa: é um registro de uma época, como o homem do Séc. XIX encarava a morte, bem diferente de hoje em dia, quando existem aqueles cemitérios parques com lápides impessoais, como se o homem não tivesse que se confrontar. Isso é muito comum hoje em dia: quando a pessoa morre, a família resolve essas questões de um dia para o outro, quando antigamente se planejava em vida todo seu funeral, seu túmulo… como se o homem fosse mais próximo, familiarizado, ciente de seu caráter passageiro no mundo.

Foto de Janduari Simões

O homem se confrontava mais naquela época consigo mesmo, sua existência?

Naquela época, o homem era mais propício a isso. Primeiro, é claro, as mortes eram muito mais comuns: as pessoas morriam de epidemias, existiam as pestes, que matavam um monte de gente ao mesmo tempo. Talvez, por isso, existia esse temor associado àquela sensação de querer se perpetuar na memória. Um esposo que perdeu a sua esposa muito amada e queria fazer um mausoléu, um monumento a esse amor. Os pais que perdiam a filha muito nova e queriam deixar para a posteridade o nome da criança…

Tem uma sepultura que é muito cândida, muito bonitinho, chama-se Lulu. Não é cheia de ornamentos, é discreta: um vaso, uma urna funerária e uma espécie de lençol… um “panejamento”, como a gente chama, cobrindo a urna, como se fosse para aquecer. Durante a pesquisa, notei que a Lulu era uma criança que morreu com três anos. E ali eu entendi o que significava a rosa em botão quebrada – uma flor que não chegou a desabrochar. Então, eu digo que o Soledade é um livro de histórias com texto e gravura. Os textos são os epitáfios, as lápides escritas, e as gravuras são os inúmeros símbolos que podemos encontrar no cemitério.

Qual seria a importância do restauro do Soledade, do ponto de vista da Educação Patrimonial?

Muito, muito importante, pois não adianta fazer apenas a modificação se não houver todo um processo de educação patrimonial que as acompanhe. O cemitério da Soledade, construído em 1850, tem uma particularidade: em 1880, fecharam-se os portões. A partir de então, não havia mais encerramento, o que contribuiu para manter toda a área do Soledade como um ótimo registro do Séc. XIX. Quando continuam abertos para encerramentos, vemos um processo comum, onde esculturas dos séculos XIX e XX habitam o mesmo cemitério. Assim, vemos a passagem do tempo através da mudança de estilo das construções; do romantismo ao realismo, modernismo, cubismo etc. Como o Soledade fechou suas portas, é como se aquele pedacinho de nossa cidade no Séc. XIX permanecesse guardado.

Foto de Janduari Simões

Como conciliar educação patrimonial às visitas dos devotos que ainda passam por lá, deixando para trás seus “objetos de fé”?

Com o passar do tempo, a população começou uma série de ações de devoção às almas. Isso é muito forte até hoje: toda segunda-feira, o cemitério é aberto o dia inteiro, e os mais variados devotos fazem culto às almas, acendem velas no cruzeiro – alguns túmulos são de devoção popular. Isso é muito interessante, quer dizer, são “santos”, entre aspas, pois não são canonizados pela Igreja Católica, mas a própria população cria aquela devoção.

A imagem do menino Zezinho, que também morreu precoce, é um exemplo: as pessoas colocam bombons, refrigerante, vestem nele camisetas do menino Jesus, não no intuito de destruir – não têm esta noção. Mas, caso houvesse uma ação de educação patrimonial, talvez estes devotos passassem a imaginar: “Poxa, se eu colocar uma camiseta neste mármore, molha, vai corroer todo o mármore, e danificar. O bombom que eu deixo lá vai dar formiga, e aquele melado também vai danificar a obra”. Não vamos coibir ou proibir as devoções, o que seria antropologicamente terrível, mas existe a necessidade de educação por trás dessas melhorias – são ações que sustentam qualquer projeto a ser implantado. E eu tenho certeza de que as pessoas, se conscientizadas, teriam maiores cuidados.

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